Jogos de tabuleiro: uma jornada através das dinâmicas sociais de competição, conflito, acomodação e assimilação
Os boardgames, mais popularmente conhecidos como jogos de tabuleiro, são caracterizados por envolverem peças físicas manipuláveis e superfícies planas que podem ser utilizadas de modo a servirem como pré-medições acerca das regras de cada jogo. Esses jogos, que geralmente possuem regras definidas e claras a serem seguidas, buscam promover o alcance de vários objetivos a depender da característica do jogo, como criar reflexões e associações acerca do jogo como uma dimensão da vida social, internalizando as suas regras e assimilando de modo compartilhado como as mesmas acontecem dentro do jogo, estabelecer a competição como um processo de interação que ocorre quando um grupo ou dois indivíduos se enfrentam, a possibilitação do ganho de vantagem em detrimento de outro jogador que tende a acontecer em mecânicas de conflito e a permissão da construção de um processo de ajuste mútuo entre os indivíduos quando precisam chegar em um entendimento em comum.
No decorrer dos encontros que ocorreram na Universidade Federal de Alagoas junto ao coordenador do subprojeto de Sociologia, Amaro Xavier Braga Junior, os bolsistas foram introduzidos as mais diversas mecânicas, categorias e modelos de jogos de tabuleiro, desde jogos de entrada (gateways, conhecidos por serem opções mais simples e ideais para se começar uma sessão de jogos, por possuírem características mais introdutórias) a jogos com regras e estilos mais complexos e instigantes.
Durante as sessões de boardgames, foi possível observar como os mesmos são capazes de compelir processos amplamente conhecidos na área das Ciências Sociais, estabelecendo dinâmicas e relações de interação que ocorrem entre indivíduo-grupo nos mais diversos contextos sociais, mas que foi propiciada nesse ambiente do jogo como meio lúdico para facilitar a aprendizagem.
Das quatro formas existentes de interação social, como a competição, o conflito, a acomodação e a assimilação, podemos entendê-las como formas que estão presentes nos mais diversos níveis e camadas sociais, pois é a partir do contato que se estabelecem o início de uma interação social, desde que esses indivíduos estejam próximos fisicamente ou não. É apenas no processo de competição que não se exige necessariamente o contato e a interação uns com os outros, uma vez que esses já estão atrelados a outros processos de interação e o caráter externo das relações humanas proporciona uma separação espacial destes em uma sociedade que é distribuída territorialmente.
A competição é a forma de interação social onde os indivíduos buscam superar uns aos outros a partir da maneira como a organização distributiva e ecológica da sociedade é criada. Segundo Walker (1888, p. 92), “se opõe ao sentimento. Sempre que qualquer agente econômico faz ou omite algo sob a influência de qualquer outro sentimento do que o desejo de dar o mínimo e ganhar o máximo que puder em uma troca, seja por sentimento de patriotismo, de gratidão, de caridade ou de vaidade, levando-o a fazer o contrário e não aquilo a que o interesse próprio o conduziria, nesse caso, também, a regra da competição se apartou. Outra regra, com o tempo, é substituída.” Esse significado, traz o processo de competição como um fator de externalidade e universalidade, uma vez que ela é um aspecto fundamental na vida e inerente aos seres humanos.
No mundo dos jogos de tabuleiro, que durante toda a sua predominância na sociedade representou uma extensão da vida social, os jogadores podem entrar em confronto entre si e de maneira oposta ao jogo a depender das regras, buscando superarem uns aos outros ou até mesmo correrem em harmonia em busca do triunfo que é vencer o jogo. Dessa maneira, as regras e interações que acontecem ali entre jogadores podem estampar dinâmicas sociais de disputa por recursos escassos, posição ou o que acontece de maneira mais ampla no contexto de mercado de trabalho em nossa sociedade, onde pessoas disputam entre si de maneira inconsciente por uma colocação.
Quando a competição toma forma de conflito ou rivalidade, é o momento em que a mesma se torna consciente, quando os integrantes de uma dinâmica acabam por se identificarem como antagonistas ou até mesmo inimigos. Este tipo de fato, nos sugere que a competição é um processo de interação que acontece de modo a não ser preciso o contato social. É o significado compartilhado por mentes que entendem como esse processo deve acontecer mutuamente, onde é capaz de existir propriamente um contato social.
A acomodação, por sua vez, pode apresenta-se através dos jogos pelo desejo mútuo entre os indivíduos a buscarem lidar com as diferenças e assim chegar a um entendimento em comum, mediante negociações, acordos e outros diversos modos de se entenderem para alcançarem um desejo compartilhado. Esses tipos de jogos de tabuleiro, buscam exigir que os jogadores consigam trabalhar entre si para abarcarem seus objetivos finais.
À medida em que os turnos dos jogos de tabuleiro avançam e os jogadores continuam a colaborar e a compartilhar suas respectivas ideias, acontece nesse momento a incorporação de estratégias, sugestões e do entendimento das perspectivas observadas uns pelos outros, levando assim a um processo de compreensão das necessidades e demandas que são postas ali, tanto pelos jogadores, quanto em razão das próprias regras do jogo, caracterizando assim a assimilação.
Em desenlace, os boardgames podem refletir e simular diversos processos sociais que são percebidos nas relações humanas, possibilitando o seu uso um campo fértil para intermediar o ensino, análise e compreensão do mundo por meio de uma imaginação sociológica que não é só adquirida, mas construída, na qual: "capacita seu possuidor a compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos, permite-lhe levar em conta como os indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem frequentemente uma consciência falsa de suas posições sociais." (Mills, 1975, p. 11).
Referências bibliográficas:
PARK, Robert E. e BURGESS, Ernest W. “Competição, conflito, acomodação e assimilação”. RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 13, n. 38, pp. 129-138, Agosto de 2014. ISSN 1676-8965. JOHNSON, Allan G. Dicionário de sociologia. Zahar, 1997.
MILLS, Wright C. "A Imaginação Sociológica". Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975.
Autora:
Francialy Clarissa Melo dos Santos
Muito bom
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